Família reunida via Wi-Fi
- sonianiara
- 15 de set. de 2021
- 4 min de leitura
Atualizado: 29 de set. de 2021
As mudanças, intensificadas pela pandemia, sobre um dos pilares mais importantes da sociedade

Para muitos jovens, uma das primeiras etapas para a realização pessoal é ter seu próprio espaço e ir morar sozinho, antes mesmo de construir uma nova família. Poder escolher os móveis, organizar as coisas do seu jeito e convidar os amigos, à qualquer hora, é sinônimo de liberdade. Com a independência conquistada é natural que as visitas na casa dos pais venham a diminuir. Mas, e quando toda esta liberdade fica resumida aos 40m² do seu apartamento devido a uma pandemia que está alastrando o mundo todo?
Graziele Ribeiro, 39 anos, que mora sozinha e em São José dos Campos há mais de 6 anos, sabia bem desfrutar da liberdade da sua vida adulta. Antes da quarentena, ela trabalhava 10 horas por dia como fisioterapeuta, mas também aproveitava o tempo após o trabalho e os finais de semana para estar com os amigos, tomar um café, fazer uma trilha ou uma viagem curta.
Há mais de 2 meses dentro de casa, com uma carga de trabalho 75% menor, Graziele diz que, dentre toda a sua rotina e vida social, “uma das coisas que não imaginaria sentir tanta falta é da família. Vejo que eu poderia até visitá-los mais vezes”.
A solução encontrada por ela para diminuir toda esta saudade e necessidade foi: “ver minhas tias, meus primos, meu irmão, e até rever minha tia bisavó de 102 anos, pelo celular”.
TECNOLOGIA
A mesma solução encontrada por Graziele é a de milhares de pessoas no mundo, já que empresas como a Microsoft, Skype e WhatsApp tiveram aumento mínimo de 70% no uso de ferramentas de vídeo, se comparado aos períodos anteriores à pandemia da Covid-19.¹ No caso da empresa e plataforma Zoom, o aumento de usuários foi de 121% só no mês de março de 2020 — um enorme crescimento em relação ao ano passado.²
Para Maria Fernanda Craveiro, 21 anos, estudante de Arquitetura e Urbanismo, a tecnologia tem sido a melhor forma de diminuir a distância de sua irmã Clara Craveiro, 18 anos. “Quando eu preciso de alguma coisa ou perguntar algo, agora é só mandar mensagem ou ligar, algo que a gente não fazia muito antes”.
Por morarem separadas — Maria Fernanda com o avô de 94 anos e Clara com a mãe — Mafe diz que ela e a irmã se viam apenas duas vez por semana, quando faziam aulas de pilates juntas, e interagiam mais aos finais de semana na casa do avô. “Agora, nos finais de semana temos que estudar bastante. Quando chega à noite, no horário que fazíamos algo juntas, a gente quer descansar”.
VISITA ONLINE
Para as mães de primeira viagem, como a Joyce Victor, 32 anos, a palavra descansar; pode desaparecer completamente do vocabulário. Na verdade, elas querem mesmo é ter a casa cheia, receber a visita da família, trocar as novas experiências com as amigas e, sim, ver seu bebê ser muito paparicado. Ter o nascimento da Bella em plena quarentena, fez Joyce expressar um sentimento não esperado: ”É muito triste porque é seu primeiro filho, é uma emoção nova e você quer mostrar seu filho para todo mundo. Mas aí você ganha seu bebezinho e não tem ninguém ali”.
Mas, ainda na maternidade, os pais Joyce e Gustavo apresentaram Bella à família e aos amigos íntimos por meio de visitas online, utilizando a ferramenta de vídeo do WhatsApp. As visitas continuam até hoje e, para ter a ajuda da mãe e da irmã, elas criaram um grupo de WhatsApp, onde a mãe coruja encaminha diariamente fotos, áudios e vídeos da pequena Bella.
UMA EXPERIÊNCIA COMUM
Segundo a doutora em Psicologia Social, Soraya Souza, “a forma digital, ganhou um up grade” dentro da estrutura social e familiar, uma vez que “deletamos o modo de se relacionar que conhecíamos e passamos então, a fazer lives, seja para comunicar um conhecimento ou para se divertir”.
Para o casal Ana Paula Romão, 46 anos, e Paulo Maia, 65 anos, a diversão fazia parte da rotina antes da pandemia. Ainda que passassem a semana toda trabalhando juntos, pois Paulo é advogado e Ana Paula estudante de Direito, também dedicavam tempo para o lazer, viagens e passeios com os amigos. Mas, esta convivência excessiva, em tempos de crise, pode trazer mais preocupações e até desentendimentos, afirma Ana Paula.
Para o casal, a melhor forma de amenizar este clima é no diálogo e, como ela afirma, “respeitar acima de tudo as opiniões um do outro, ainda que sejam divergentes”.
A psicanalista clínica, Soraya, complementa que este é um momento social para “fortalecer os laços emocionais, buscar a harmonia no lar, valorização das relações mútuas e reorganização familiar”. Pois, ainda que a família seja uma das instituições mais antigas da sociedade e, também esteja atravessando períodos de reestruturação, ela continua exercendo grande influência sobre o comportamento das pessoas, sobre seu bem-estar, senso de pertencimento, acolhimento e proteção.
Afinal, seja qual for o modelo de família, seja ela pequena ou com muitos indivíduos, precisamos concordar com Maria Fernanda: “É a nossa família que vai estar com a gente nos momentos bons e nos momentos ruins”.
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Publicado em Outubro de 2020 na Revista Foca — Universidade do Vale do Paraíba Link para a edição da revista: https://issuu.com/focafcsac/docs/foca_02_subir


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