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[Crônica] Março de 2020: o início de uma saudade

  • sonianiara
  • 15 de set. de 2021
  • 4 min de leitura

Atualizado: 29 de set. de 2021

“Devia ter amado mais

Ter chorado mais

Ter visto o sol nascer

Devia ter arriscado mais

E até errado mais

Ter feito o que eu queria fazer.”




Para muitas pessoas, a música dos Titãs, Epitáfio, pode ter virado tema dos últimos 8 meses e dos próximos que virão. Talvez, a geração Z — que mal deve conhecer essa canção — nunca tenha imaginado vivenciar uma pandemia. Mas, ela chegou em meio à tanta tecnologia, robôs, inteligência artificial… Será que o algorítmo não poderia ter previsto que estávamos bem mais próximos desse caos do que imaginávamos?


O vírus, invisível, chegou e nos colocou, todos — ou quase todos, trancafiados dentro de nossas casas. A maioria de nós deixou aquela rotina de levantar cedo; pegar o transporte; reclamar do trânsito; e de não ter tempo nem para uma refeição rápida, menos ainda para uma longa conversa olho no olho.


Nós, universitários (sejam alunos, sejam professores) tínhamos que ultrapassar barreiras físicas e emocionais de um dia inteiro e, quando parecia ser a hora de desacelerar, ainda faltavam as 3 horas e meia de aulas na faculdade.


Eu também fazia essa correria toda. Mesmo depois de passar por tantas experiências na vida e prometer para mim mesma não viver mais tão afobada. Porém, tinha dia que eu vivia. Pelo menos eram alguns dias, não todo dia.


Eu também me esforçava para não reclamar dos 40 minutos de estrada na volta para casa, pois sabia que havia colegas e uma amiga bem próxima, a Andresa, que enfrentava um trajeto mais longo do que o meu e tinha menos horas de sono do que eu.


Mas, afinal, mesmo percorrendo uma saga única, individual e diária, era ali que encontrávamos nossos amigos, nossos professores, e quem sabe até alguns amores. Era subindo as rampas da FCSAC que compartilhávamos sentimentos, projetos e também fracassos. Os intervalos sempre movimentados de vestimentas distintas, uns certinhos demais, outros diferentes demais — dependendo da ótica de quem vê.


Quando os professores nos seguravam alguns minutinhos a mais, para passar uma atividade ou tirar um dúvida que poderia ser de todos — ainda que nem todos prestassem mais atenção — já podíamos ouvir os burburinhos pelos corredores e, em muitos dias, o som do carrinho da Katê, das Tortelícias. (Se você se lembra disso, provavelmente salivou junto comigo agora.)


Foi então, que o ciclo natural da vida comum e universitária foi interrompido. Como profissionais da comunicação, já sabíamos do avanço da pandemia do novo coronavírus (covid-19) pela China e seu início abrupto na Itália. Mas, quando chegou em território brasileiro, coincidentemente depois do carnaval e pela bodas do casamento da irmã da Gabriela Pugliesi — nos assustamos. Era real!


O confinamento chegou trazendo preocupação e nos tirando o bem mais precioso que tínhamos — o presencial. Para alegria de alguns, era bom estar em casa. Era bom estar com a família. Era bom estar isolado em seu próprio quarto. Tudo o que tínhamos de concreto passou a brilhar pelas telas eletrônicas. Amizades foram provadas e aprovadas. Relacionamentos abalados ou sustentados. E o ensino? Esse teve que provar o seu poder à distância.


Ainda que o empenho dos professores tenha sido o mais intenso, a mudança das aulas abalou a todos. Nós, alunos, com o foco dividido; com a atenção rasa e insistente. Mesmo pelas telas frias era possível ver o triste olhar dos professores, porém em todo o tempo persistentes.

A conexão instantânea que só acontece pelas retinas, agora enfrentava o delay da oscilação da rede da internet. Ou era interrompida pela ausência dela. Muitos precisaram ir à casa de algum parente bem próximo — menos os avós e grupo de risco — para usar a internet. Outro, com a ajuda dos pais, até ao morro mais alto subiu para achar o tal sinal.


A ausência, a adaptação e a ansiedade que achávamos que durariam pouco mais de um mês, virou saudade. Saudades do açaí e do pão de queijo da cantina. Saudades do bate-papo e das intrigas. Saudades das risadas e dos amigos. Até dos professores, que a troca era rápida ou nos corredores, a saudade apertou.


Era real! Para quem confiava nas previsões do futuro, elas deixaram de existir. Para quem confiava no poder de suas mãos, elas se apresentaram impotentes e dependentes do álcool em gel.


Para muitos, foi um ano duro e de perdas. Perdas financeiras que ainda buscam ser reerguidas. Perdas materiais que se mostraram não tão importantes. Perdas intelectuais, que só os autodidatas não se sentiram assim para trás. E perdas de pessoas tão amadas e queridas que nunca mais serão esquecidas. Talvez, o ano mais difícil para quem entrou ou para quem estava saindo da faculdade.


Mas, ainda que nosso coração esteja inundado do sentimento da saudade, podemos seguir com esperança. Podemos sonhar com o dia em que a universidade estará movimentada de novo e pelo novo. Podemos sonhar com a alegria de novamente nos encontrarmos. Pois, mesmo depois da pandemia, a verdade é que tudo continuará sendo como antes e exatamente como Titãs cantou: “Cada um sabe a alegria e a dor que vai no coração”.


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Publicado em Junho de 2021 na Revista Foca — Universidade do Vale do Paraíba

 
 
 

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